7# ARTES E ESPETCULOS 16.4.14

     7#1 LIVROS  TERRA DESOLADA
     7#2 LIVROS  O HOMEM QUE QUER TUDO E MAIS AINDA
     7#3 LIVROS  PARA NO SER UM MORTO-VIVO
     7#4 MSICA  A GUITARRA VESTE FRAQUE
     7#5 CINEMA  UM ASSOPRO, UM TAPA
     7#6 CINEMA  VOO SEM INSTRUMENTOS
     7#7 VEJA RECOMENDA
     7#8 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#9 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VOU ATUAR

7#1 LIVROS  TERRA DESOLADA
O historiador Niall Ferguson examina fatos e nmeros da I Guerra e conclui: foi, como j se argumentava, um conflito evitvel  mas muito do que se diz sobre ele est equivocado.
NELSON ASCHER

     Cem anos atrs, em 1914, o assassinato do herdeiro ao trono austro-hngaro em Sarajevo por um nacionalista srvio da Bsnia desencadeou uma imensa crise diplomtica  e, depois, a guerra. Arrastando-se por quatro longos anos, a I Guerra Mundial resultou em cerca de 10 milhes de mortos, devastou algumas das regies mais produtivas da Europa, alterou completamente o mapa poltico do continente e, para todos os efeitos, tornou inevitvel, duas dcadas mais tarde, um conflito ainda mais assassino e destruidor. No so poucos os historiadores que veem nessa conflagrao o nascimento do mundo contemporneo. A essa distncia, seria de imaginar que as principais questes relativas s suas causas, consequncias e natureza j estariam mais do que estabelecidas. No  assim, porm, que a historiografia funciona: no que tem de melhor, ela consiste na reavaliao peridica dos juzos anteriores. De resto, associam-se a fenmenos histricos desta magnitude tais ou quais explicaes que, aos poucos, convertem-se em dogmas. No seu exame do conflito de 1914-1918, O Horror da Guerra (traduo de Janana Marcoantonio: Planeta; 736 pginas; 89,90 reais), o historiador britnico Niall Ferguson, especialista em histria econmica e professor das universidades Harvard e Oxford, procura primeiro demonstrar at que ponto essas explicaes no passam, a rigor, de mitos. E, questionando-os, oferece em seu lugar um conjunto de interpretaes que, de to pouco convencionais, irritaram at seus colegas mais fleumticos. 
     O ttulo original, The Pity of War, vem de um poema do ingls Wilfred Owen, que morreu na guerra. Seu sentido remete no tanto ao horror mas, antes,  "desolao da guerra"  que foi desoladora por ter sido um equvoco, sobretudo, acredita Ferguson, da parte de seu prprio pas. A Inglaterra, argumenta ele, deveria ter evitado ou pelo menos limitado sua participao. No entanto, devido a uma interpretao errada dos objetivos alemes, no apenas ampliou e prolongou as hostilidades, como tambm ps a perder sua posio privilegiada na ordem mundial de ento. Isso acabou acarretando, paralelamente, o naufrgio do primeiro autntico processo de globalizao econmica, processo que, sempre segundo Ferguson, s seria de fato retomado nos anos 1990. 
     Hipteses histricas alternativas, que especulam sobre o que teria acontecido se um ou outro participante houvesse agido de outro modo, so vistas com extrema desconfiana pela maioria dos historiadores. Mas podem ser teis para colocar os fatos em perspectiva e para enfatizar que nem tudo o que aconteceu era necessariamente inevitvel. No cenrio proposto por Ferguson, com a Inglaterra de fora da guerra, o conflito teria sido mais limitado e breve, com uma rpida vitria alem, o que, alm de evitar um dos acontecimentos mais trgicos do sculo, a Revoluo Russa, conduziria a uma espcie de unificao econmica do continente no muito diferente da atual Unio Europeia. Nenhuma dessas concluses  gratuita: elas resultam de uma anlise to meticulosa quanto inovadora, cujo propsito declarado j nas primeiras pginas consiste em rever o que quase todos julgam saber a respeito do conflito e de suas causas aceitas. 
     Um exemplo: j antes do primeiro tiro, associou-se  I Guerra uma interpretao marxista que a declara indiscutivelmente causada por fatores econmicos como a cobia insacivel dos capitalistas e/ou imperialistas e o oportunismo sanguinrio dos ''mercadores da morte" (fabricantes de armas). Na verdade, demonstra Ferguson, banqueiros, comerciantes e outros capitalistas desgostavam do que quer que pudesse atrapalhar a paz e a tranquilidade propcias para os negcios. Para alm do esquematismo marxista, aplicvel com igual ou maior inutilidade a qualquer outra disputa, h causas particulares que passaram das anlises jornalsticas da poca para os manuais de histria, adquirindo o estatuto de verdades absolutas  por exemplo, o militarismo alemo (ainda hoje caricaturado no cinema). O Horror da Guerra mostra que os alemes iniciaram sua ofensiva em duas frentes no por ambio de conquista, mas porque sabiam que, em relao aos adversrios, sua situao era a cada ano pior. Para um pas que vinha perdendo uma prolongada corrida armamentista, enquanto sua desvantagem demogrfica se ampliava, aquele talvez fosse o ltimo momento em que restava alguma chance de derrotar os rivais numa guerra que parecia inevitvel, e no s para eles. 
     Nessa guerra, os ingleses tiveram o dobro, e os franceses o triplo, das baixas que sofreriam na II Guerra. Mas, ao contrrio do que sucederia no conflito de 1939-1945, a imensa maioria das baixas foi militar, no civil. Os soldados entremeavam meses sem fim entrincheirados em lodaais infestados de ratos com momentos intensos de ao frequentemente suicida. O ataque a p, vagaroso e arrastado, estava em desvantagem diante da grande mquina de produzir mortos: a metralhadora. Esses ataques e contra-ataques extremamente custosos foram, desde ento, vistos como um exerccio de futilidade, um desperdcio criminoso de recursos e vidas. No de acordo com Ferguson: o atrito, explica o historiador, foi um elemento intencional do conflito. Cada lado esperava que as reservas do inimigo se exaurissem antes das suas. A Trplice Entente  aliana que reuniu Frana, Inglaterra e Rssia  administrou mal seus recursos: segundo clculos de Ferguson, custava trs vezes mais matar um soldado alemo do que um ingls ou francs. Mesmo assim, especialmente aps a entrada dos Estados Unidos no conflito, foi a vantagem demogrfica e econmica dos aliados que prevaleceu  alis, como ocorreria tambm na guerra seguinte. 
     Estudioso dos fatores que levaram a civilizao capitalista ocidental  sua posio hegemnica, pensador conservador mas anticonvencional, capaz de debater vitoriosamente com esquerdistas variados (como se v em suas polmicas com o nobelizado Paul Krugman), Ferguson apresenta, em O Horror da Guerra, no uma histria blica convencional, com a narrativa de batalhas ganhas ou perdidas e um rol de comandantes, de tticas e estratgias etc. Trata-se, antes, de uma meticulosa e radical reavaliao global do conflito, tanto de suas causas e desdobramentos quanto do lugar especfico que ocupa no conturbado sculo XX  e na formao de um mundo que ainda  o nosso. 

PARA LER E ENTENDER A GUERRA
A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL, DE LAWRENCE SONDHAUS (TRADUO DE ROBERTO CATALDO COSTA; CONTEXTO; 560 PGINAS; 55,92 REAIS)
O especialista da Universidade de Indianpolis traa um panorama completo do conflito, do xadrez geopoltico s manobras militares.

DEPOIS DA RAINHA VICTORIA, EDWARD VII, DE ANDR MAUROIS (TRADUO DE VERA GIAMBASTIANI; GLOBOLIVROS; 312 PGINAS; 49,90 REAIS)
Datada de 1933, esta biografia clssica de Edward VII, rei ingls de 1901 a 1910, ilumina o perodo de tenses crescentes que levaria a Europa  guerra. 

OS TRS IMPERADORES, DE MIRANDA CARTER (TRADUO DE CLVIS MARQUES; OBJETIVA; 600 PGINAS; 57,90 REAIS)
tima biografia dos trs primos que governavam as principais potncias da Europa em guerra: o rei ingls Jorge V, o kaiser alemo Guilherme II e o czar russo Nicolau II.

CATSTROFE, DE MAX HASTINGS (TRADUO DE BERILO VARGAS; INTRNSECA; 672 PGINAS; 49,90 REAIS ou 29,90 REAIS EM E-BOOK)
Com lanamento em 3 de maio, a obra examina o ano inicial da guerra pelo ngulo dos annimos envolvidos nela, de camponeses a soldados.


7#2 LIVROS  O HOMEM QUE QUER TUDO E MAIS AINDA
A histria do bilionrio fundador da Amazon e suas ambies megalomanacas, como estocar tudo o que j foi manufaturado e criar foguetes para colonizar o espao.
FILIPE VILICIC

     Vista por olhos contemporneos, em um mundo onde quatro em dez pessoas tm acesso  internet (em pases ricos, oito em dez), a Amazon parece uma ideia bvia. Em 1994, porm, quando o americano Jeff Bezos lanou seu site de e-commerce com a ideia de vender de tudo, quase ningum confiava na empreitada. Havia apenas 40 milhes de "internautas", como ento se chamavam os pioneiros navegantes do universo virtual. "Se a web fosse um cassino, Bezos seria o cara que apostou tudo", disse a VEJA o jornalista americano Brad Stone, especializado na cobertura de tecnologia. "Poucos acreditavam que ele sairia ganhando. Bezos cultivou inimizades por sua persistncia, e muitos desistiram dele na virada do milnio, quando a bolha da internet estourou. Mas ele se saiu como o maior ganhador do cassino."  de Stone A Loja de Tudo (Intrnseca; 398 pginas; 39,90 reais, ou 24,90 na verso digital), sobre a trajetria do fundador e CEO da Amazon. Bezos mandou um "beijinho no ombro"  para citar a "grande pensadora" Valesca Popozuda  aos inimigos. Tornou-se a vigsima pessoa mais rica do planeta, dono de uma fortuna de 29,5 bilhes de dlares. 
     O chefo da Amazon  pintado no livro como uma divindade cruel e vingativa da indstria digital. Segundo o autor, eis como os executivos da companhia o definiam: "Se voc no for bom, Jeff vai mastig-lo e depois cuspi-lo. Se voc for bom, ele vai pular nas suas costas e derrub-lo para montar em voc". Stone descreve a gargalhada irnica do empreendedor como uma arma, usada para humilhar funcionrios quando eles no atingem os altssimos padres de qualidade que impe, ou para desarmar e punir quem o contraria. A arrogncia seria fruto da genialidade de Bezos, que quando criana era tido como o mais talentoso aluno de uma escola de superdotados no Texas (aos 12 anos, alis, ele desenvolveu um sistema matemtico para avaliar o desempenho dos professores da 6 srie). Para Stone, alm do brilhantismo, outros dois fatores teriam influenciado sua personalidade e criado nele a necessidade de se provar: a determinao da me em transform-lo num prodgio e o abandono do pai biolgico, um artista circense fracassado. Sem explicar o que uma coisa teria a ver com outra, Stone v significncia no fato de trs cones modernos da inovao (alm de Bezos, Steve Jobs, da Apple, e Larry Ellison, da Oracle) serem filhos adotados. 
     Apesar de compartilhar detalhes da vida pessoal, A Loja de Tudo no  uma narrativa centrada na intimidade do biografado. O personagem principal  o negociante. E, como negociante, no h quem bata Bezos na indstria digital. Em 1994, a Amazon comeou como uma loja virtual de livros. Escondia-se ali uma ambio maior: ser o primeiro 
     
     mercado a comercializar tudo o que j foi produzido. No fim da dcada de 90, o empresrio desenhou dois projetos. O primeiro, apropriadamente apelidado de Alexandria, armazenar dois exemplares de cada livro escrito no decorrer da histria da humanidade. O outro, o Projeto Fargo (o nome  referncia ao filme dos irmos Coen), com a meta de encher galpes com um exemplar de cada produto j manufaturado. Por enquanto, no concretizou esses sonhos. 
     Parece muito? No na mente de Bezos. Alm do e-commerce, ele revolucionou a leitura digital com o e-reader Kindle. Tambm montou o melhor sistema de computao de nuvem, o Amazon Web Services. Deu o empurro inicial, na forma de investimentos, para a criao do Google. No ano passado, comprou o The Washington Post  e, segundo editores do prprio, est tirando do buraco o tradicional jornal. No s de xitos autoevidentes, porm, foi feito o seu caminho. No auge da bolha da internet, na virada do milnio, as aes da Amazon despencaram e os analistas do setor anunciaram que a falncia da empresa era iminente. Bezos desprezou as crticas e disse que no se sentia 30% menos inteligente toda vez que seu valor caa 30% em Wall Street. 
     A narrativa dura desagradou s pessoas prximas do todo-poderoso. No espao de comentrios da prpria Amazon, a mulher de Bezos, MacKenzie, fez uma crtica cida, apontando erros (pouco relevantes) de apurao. Tambm atacou Stone por presumir o que pensava o perfilado, em afirmaes como "Bezos sentia...", sem o ter entrevistado. Se fosse possvel prever o que Bezos pensa, isso valeria uma especulao. Pode estar certa uma ex-namorada de adolescncia: "Ele quer tanto dinheiro s para ir para o espao", diz ela. F de Jornada nas Estrelas, Bezos fundou, em 2000, a Blue Origin, empresa dedicada  explorao espacial. As intenes so, como sempre, acima de qualquer padro: criar foguetes para realizar viagens comerciais pelo cosmo, colonizar o espao e levar seu fundador para a Lua. A Terra, para Bezos,  pouco.


7#3 LIVROS  PARA NO SER UM MORTO-VIVO
Livro orienta profissionais a evitar o risco de se tornarem "zumbis corporativos" e no arruinar a carreira.

     Talvez o maior risco para um profissional dentro de uma grande empresa seja se acomodar, imaginando que nunca ver ser ameaada a sua posio  e muitas vezes nem mesmo intuindo que, na verdade, est prestes a ser demitido. No  fcil mudar de atitude e corrigir a rota a tempo de evitar o pior. Corporate Zombies  Manual de Sobrevivncia Corporativa (Giostri Editora; 191 pginas; 42,00 reais) serve como um guia para quem pretende se manter motivado no ambiente profissional, escapando do destino ruim reservado queles sem iniciativa para mudar. Os autores Victor Sardinha e Andr Ferreira usam do bom humor e de caricaturas para descrever os diferentes estgios da trajetria de um funcionrio em cargos administrativos. Afirma Ferreira, advogado com experincia em multinacionais: "Preferimos utilizar uma linguagem divertida, uma alegoria, para passar o nosso recado: quando est prestes a ser demitido, o funcionrio j se tornou um zumbi para a empresa, quase no tem mais funes relevantes. Da o nome de zumbi corporativo. No fundo, so conselhos valiosos para empregados e gestores". 
     Para no se transformar em um zumbi corporativo, um funcionrio deve, argumentam os autores, perseverar na busca diria pela eficincia nas atividades a ele passadas e no perder o foco nos objetivos a ser alcanados. Sardinha e Ferreira citam o americano Peter Drucker (1909-2005), o pai da teoria moderna de administrao de empresas: " intil tentar eliminar todos os riscos e questionvel tentar reduzi-los, mas  preciso correr apenas os riscos certos". Isso significa que o profissional deve estar pronto para mudar e se adaptar s exigncias do trabalho. Os mais geis e aptos, naturalmente, tero a sobrevivncia assegurada, como tambm exercero influncia e liderana sobre os demais colegas. Os autores analisam alguns dos sintomas tpicos do funcionrio propenso a se tornar zumbi:  algum que se encontra perdido em sua funo e vaga atrs de desculpas ou oportunidades para se esquivar de suas atribuies. "Normalmente, essa criatura infeliz est desmotivada. Sempre tenta transferir a culpa", afirmam. " um indivduo que se alimenta do passado, valorizando vitrias e feitos que no so mais importantes no presente." Est-se diante da prtica, to antiga quanto improdutiva, de caar fantasmas em vez de assumir as responsabilidades por eventuais fracassos. Deve-se ficar atento para perceber se o processo de "zumbificao" j no se encontra em estgio avanado. Alguns sinais: o funcionrio recebe apenas tarefas operacionais e fica privado de informaes estratgicas da empresa. Em resumo, ele j comea a ser tratado como algum fora da equipe, ou no mximo um jogador pouco importante. Reagindo enquanto h tempo,  possvel no ser esse zumbi. 


7#4 MSICA  A GUITARRA VESTE FRAQUE
Os roqueiros Bryce Dessner e Jonny Greenwood exibem suas incurses pela msica erudita no lbum St. Carolyn by the Sea.

     Incurses de roqueiros pelas salas de concerto no costumam ser felizes. Na modalidade mais comum, grupos sinfnicos rearranjam clssicos do rock em ritmo de festa-baile. Ainda mais constrangedores so os esforos de astros como Paul McCartney, Roger Waters e Elvis Costello para fazer msica "sria", compondo missas, peras e bals no ponto exato de ser tocados pela orquestra do violinista do arco-da-velha Andr Rieu. Dois nomes conseguiram fugir desse cenrio brega: Bryce Dessner e Jonny Greenwood, guitarristas, respectivamente, das bandas The National e Radiohead. Trs composies de Dessner e uma de Greenwood foram reunidas em St. Carolyn by the Sea, lbum lanado mundialmente no incio do ms passado (no Brasil, pode ser adquirido em lojas virtuais). Eles no so diletantes nesse terreno: Dessner  formado em composio e trabalhou com o minimalista Philip Glass; Greenwood compe para a BBC Concert Orchestra e no ano passado lanou um lbum em dupla com  um de seus dolos, o polons Krzysztof Penderecki. Os dois fazem uma msica moderna e relevante. "Dessner e Greenwood pertencem a uma gerao que trabalha com a influncia da msica de vanguarda do sculo XX, mas tem a preocupao de ser agradvel para os ouvidos do pblico", define o maestro alemo Andr de Ridder, que rege a Filarmnica de Copenhague em St. Carolyn by the Sea. 
     O disco comeou a ser concebido h trs anos, quando Dessner encontrou De Ridder num festival de composio em Lyon, na Frana. O maestro no  um estranho ao mundo pop: trabalhou nas partes orquestrais de Plastic Beach, dos Gorillaz, regeu uma pera (um tanto duvidosa) do cantor ingls Damon Albarn e recentemente colaborou com o grupo de msica eletrnica These New Puritans. St. Carolyn by the Sea, pea de Dessner que d ttulo ao disco, deixa transparecer influncias de Igor Stravinsky e Bela Bartk. As guitarras de Bryce e Aaron Dessner (irmo do compositor e tambm integrante do National) vo crescendo aos poucos at se encontrarem com violinos, violas e violoncelos. Em Raphael, outra composio de Dessner, a percusso se aproxima da pulsao do rock'n'roll. Lachrimae  inspirada no compositor barroco ingls John Dowland. Greenwood entra no disco com a sute There Will Be Blood, composta para a trilha do filme Sangue Negro. "So criaes que certamente vo inspirar os jovens a conhecer as salas de concerto", diz De Ridder. Espera-se que seja assim tambm nas salas brasileiras: a Orquestra Sinfnica Brasileira programou Norwegian Wood, de Jonny Greenwood, em recitais que far no Rio e em So Paulo, em outubro. 
SRGIO MARTINS


7#5 CINEMA  UM ASSOPRO, UM TAPA
Os estdios j reconhecem que as heronas do dinheiro, e que as meninas so timas compradoras de ingressos. S falta parar de trat-las como cidads de segunda categoria.
ISABELA BOSCOV

     Em Divergente (Divergent, Estados Unidos, 2014), Beatrice Prior enfrenta como dilema aquilo que deveria ser dado como certo: ao fazer 16 anos e ter de escolher qual a faco de seu mundo ps-apocalptico a que dever pertencer pelo resto da vida. Beatrice pressente que a faco na qual nasceu, Abnegao, no  para ela. O teste de aptido obrigatrio confunde ainda mais as coisas: Beatrice poderia se encaixar tanto em Abnegao como em Erudio ou Audcia  um resultado que  rapidamente escondido pela mulher que aplicou o teste. Beatrice, por ser compatvel com trs das cinco faces existentes (as outras so Amizade e Franqueza),  uma "divergente" e, portanto, uma ameaa ao sistema. Se a verdade vier  tona, ela ser assassinada. Adaptado do primeiro volume da trilogia da autora americana Veronica Roth (lanado aqui pela Rocco), o filme que estreia no pas nesta quinta-feira tenta falar a um temor tpico da adolescncia: ser categorizado ou, ainda mais grave, ser identificado com a categoria errada. Aqueles que no forem fs ardorosos de Tris  como ela passa a se chamar quando se junta  faco Audcia , porm, possivelmente estaro menos envolvidos com seus dramas que intrigados com os clios da atriz Shailene Woodley: na mesma cena, de tomada para tomada, eles ora aparecem carregados de rmel, ora quase ao natural, enquanto o coque que prende seus cabelos varia de um simples torcido a um arranjo elaborado. Mero detalhe? De fato. Mas ele no apenas distrai at o ponto da irritao como denota um descaso que seria considerado indesculpvel em um filme do Homem-Aranha ou do Capito Amrica. 
     Cada vez mais, as jovens heronas proporcionam lucros opulentos aos estdios. A saga Crepsculo, que fincou a bandeira nesse territrio, ficou entre as dez maiores bilheterias mundiais em todos os anos em que algum captulo foi lanado ( exceo do primeiro, que parou no 13 lugar). Juntos, eles somaram mais de 3,3 bilhes de dlares. E, no entanto, em todos a produo era ordinria, com efeitos de segunda linha e figurinos e decorao pavorosos: conforme o credo ainda em vigor na indstria de cinema, se so elas o pblico-alvo, a displicncia  aceitvel. Cientes de que a destemida Katniss Everdeen, a herona criada pela escritora Suzanne Collins, tem fs tambm entre os garotos, os produtores da srie Jogos Vorazes cuidaram um pouco mais desse aspecto. No tanto quanto se investe, por exemplo, na concepo visual de um filme como Homem de Ferro, mas o suficiente para no fazer feio demais. A recompensa: Jogos Vorazes  Em Chamas foi o filme mais visto no ano passado nos Estados Unidos, e o quinto no mundo. 
     Shailene Woodley, revelada em Os Descendentes,  uma atriz vigorosa e promissora, e tem com Theo James, que faz Four, o enigmtico instrutor de Tris, uma qumica ardente. Mas, sozinhas, duas andorinhas no fazem vero, e os clios mutantes da protagonista so o menor dos problemas de Divergente: roteiro fraco e demasiado explanativo, caracterizao esquemtica, ao quase sempre decepcionante e falta de estilo e imaginao so defeitos muito mais graves. E que poderiam ter sido evitados: embora os livros de Veronica Roth sejam matria- prima bem menos rica que a trilogia Jogos Vorazes  sua matriz evidente , h neles msculo suficiente para um caldo menos inspido que este. O pblico, aparentemente, notou a falta de empenho: Divergente comeou com estrondo, fazendo 54 milhes de dlares na estreia, mas vem perdendo mpeto com rapidez. Os estdios j entenderam que o dinheiro das meninas vale exatamente o mesmo que o dos meninos. Agora  hora de parar de trat-las como espectadoras  ou, pior, cidads  de segunda categoria. 


7#6 CINEMA  VOO SEM INSTRUMENTOS
Em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, os olhos no veem  mas o corao sente.

     Leonardo e Giovana (Ghilherme Lobo e Tess Amorim) so inseparveis: porque so amigos desde sempre, porque ela tem uma quedinha por ele e porque ele  cego, e Giovana gosta de acompanh-lo at em casa todos os dias,  sada da escola, e tomar suas dores quando os outros meninos o provocam. Aos 16 anos, porm, no h harmonia que possa permanecer intacta, e o equilbrio entre Leonardo e Giovana  primeiro tornado mais dinmico, e depois rompido, com a entrada na rotina deles de Gabriel (Fbio Audi), o aluno novo que se mudou do interior para a capital. Agora so trs amigos inseparveis; logo sero dois, Leonardo e Gabriel; em seguida Leonardo estar sozinho, tendo tumultuado suas amizades com a intromisso, nelas, de um elemento novo  a paixo. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Brasil, 2014), longa-metragem de estreia do diretor Daniel Ribeiro, de 31 anos, se baseia no curta Eu No Quero Voltar Sozinho,  que ele lanou quatro anos atrs, com o mesmo elenco e o mesmo ponto de partida. Mas, assim como seus atores, agora mais velhos e capazes de lidar com sentimentos mais complexos e tonalidades mais sutis, o diretor demonstra uma evoluo notvel entre um trabalho e outro. Seu filme, j em cartaz no pas, escapa de se reduzir  sua situao central  a descoberta inesperada da homossexualidade  para abarcar algo muito mais rico: os ritmos desencontrados da adolescncia e no s a confuso, mas tambm a elao, causada por tanta coisa nova ao mesmo tempo. 
     Ganhador no ltimo Festival de Berlim do prmio da imprensa e do Teddy Bear, para filmes de tema gay, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho sobressai, acima de tudo, pela despretenso: no se prope levantar bandeiras nem ser filme-fenmeno, mas, ao contrrio, quer to somente compor um retrato honesto, simples e delicado, de um ponto de virada na vida de seus personagens  todos os trs, j que a mgoa de Giovana em ser preterida est tambm firmemente em seu foco. Os personagens  que so sua preocupao, e o respeito s suas cadncias, o que norteia a direo. E, se falta ainda a Ribeiro apurar um pouco mais o ouvido para os dilogos, no h como se queixar do seu talento para pr o ponto final: o de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho  irretocvel. 
ISABELA BOSCOV


7#7 VEJA RECOMENDA
DISCO 
SUPERMODEL, FOSTER THE PEOPLE (SONY)
 H trs anos, o compositor de jingles Mark Foster criou Pumped Up Kicks, cano que falava de um adolescente com tendncias homicidas. O tema espinhoso vinha revestido numa melodia grudenta, o que rendeu a Foster um contrato com uma gravadora e sucesso nas rdios. Supermodel, novo disco da banda do compositor, Foster the People (que traz Cubbie Fink no baixo e Mark Pontius na bateria), chega com a responsabilidade de pelo menos igualar o impacto de Pumped Up Kicks. A produo  de Paul Epworth, o mesmo do primeiro lbum do grupo, mas agora supervalorizado aps seu trabalho com a cantora inglesa Adele. Supermodel atira  e bem  em vrias direes, como o afrobeat em Are You What You Want to Be?: um genrico de Paranoid Android, do Radiohead (Nevermind); coros inspirados nos Beach Boys (The Angelic Welcome of Mr. Jones); e at uma cano que parece sada de um disco perdido do Duran Duran (Coming of Age, que traz a melhor performance de Foster). Foster the People no prima pela originalidade, mas compensa essa falta com o dom de criar canes que fazem jus  tradio do pop.

LIVROS
O CAMINHO DE IDA, DE RICARDO PIGLIA (TRADUO DE SRGIO MOLINA; COMPANHIA DAS LETRAS; 248 PGINAS; 39,50 REAIS)
 Respirao Artificial, de 1980, consagrou Ricardo Piglia como um dos melhores escritores da literatura argentina ps-Jorge Luis Borges. Era um romance, mas com grandes rasgos ensasticos, nos quais se discutia a obra de filsofos como Wittgenstein e de escritores corno Franz Katka. O protagonista era Emlio Renzi, espcie de alter ego do autor que reaparece neste O Caminho de Ida, obra calcada na experincia de Piglia como professor na Universidade Princeton. Nos anos 1990, Renzi  convidado para dar aulas em uma universidade "'elitista e exclusiva" da costa leste americana; l, conhece a professora Ida Brown, figura radical e sedutora que acaba assassinada. A trama policial (Piglia  um grande leitor do noir americano) envolve um terrorista que, como o Unabomber, professava uma ideologia de retrocesso tecnolgico. Ao longo da narrativa, h aparies (irnicas) de figuras ilustres da academia americana, como o crtico belga Paul de Man, grande divulgador do desconstrucionismo nos Estados Unidos.

HOMENS DIFCEIS, DE BRETT MARTIN (TRADUO DE MARIA SILVIA MOURO NETTO; ALEPH; 368 PGINAS; 54 REAIS)
 O desaparecimento de um ator, em janeiro de 2002, deixou uma "parcela do universo em suspenso", segundo o jornalista americano Brett Martin. Sinal dos tempos, o sumio que paralisou fs e executivos do entretenimento no envolvia nenhuma estrela de Hollywood: o sujeito em questo era James Gandolfini, protagonista da srie Famlia Soprano. quela altura, o drama exibido entre 1999 e 2007 pela HBO j se impunha como o marco zero na revoluo de qualidade que levaria a TV americana a suplantar o cinema como referncia cultural. Depressivo e mergulhado no lcool e nas drogas, Gandolfini (que morreu no ano passado) no segurava a barra de ser o mafioso Tony Soprano. Sempre surtado, faltava com frequncia s gravaes. A histria de seu sumio  ele reapareceria dias depois   uma das anedotas de bastidores que Martin resgata neste livro sobre a ascenso das sries da TV a cabo. De The Wire a Breaking Bad, o autor elenca os fatores que permitiram tal exploso, como a tomada do poder pelos roteiristas e a possibilidade, proporcionada pelas TVs de tela plana, de explorar melhor a fotografia.

DVD
SEMENTES DA VIOLNCIA (BLACKBOARD JUNGLE, ESTADOS UNIDOS, 1955. VERSTIL)
 Dramas humanos realistas e problemas sociais contundentes entraram com maior nfase na agenda de Hollywood nos anos 1950, quando investir em entretenimento adulto se tornou uma estratgia eficiente na ento acirrada concorrncia com a televiso. Na trilha do xito de O Selvagem  que dois anos antes fizera a fama do bad boy Marlon Brando , o diretor Richard Brooks adaptou um romance best-seller para fazer seu retrato da delinquncia juvenil em uma escola para rapazes, na zona pobre de uma grande cidade americana. Richard Dadier (Glenn Ford), um veterano de guerra que consegue emprego como professor de ingls, tem de lidar com a insubordinao e a violncia de um grupo de alunos liderados pelo negro Miller (Sidney Poitier) e pelo irlands Artie (Vic Morrow). Conflito racial, assdio sexual, crise conjugal, alcoolismo e rock'n'roll  Rock Around the Clock  a msica-tema  entram no coquetel que fez do filme um sucesso em seu tempo e, hoje, um clssico. Curiosamente, doze anos depois Poitier encarnaria o professor s voltas com alunos rebeldes no tambm clssico Ao Mestre com Carinho.

TELEVISO
MAD MEN  A STIMA TEMPORADA (ESTREIA SEGUNDA-FEIRA, AS 2lH, NA HBO)
 Nesta stima e derradeira temporada, as aventuras e crises existenciais do publicitrio Don Draper (Jon Hamm), seus colegas e sua famlia chegaro ao fim junto com os anos 1960, dcada que o seriado retratou  perfeio. Desde a primeira temporada, Mad Men acumulou quinze prmios Emmy e quatro Globos de Ouro. No primeiro episdio da nova leva,  1969, e os personagens esto prestes a entrar na era Nixon. Vero o homem pisar na Lua, sofrero os impactos da Guerra do Vietn e sentiro os eflvios psicodlicos de Woodstock. Enquanto Draper, mais do que nunca, tenta acertar contas com o passado, outros executivos da agncia Sterling Cooper tambm procuram aplacar seus demnios  seja pelo engajamento em novos comportamentos e ideologias, seja pela vertigem dos prazeres artificiais tpicos do perodo. Trabalhando no perturbador registro entre a delicadeza e a mais completa desolao  com ritmo lento, dilogos cortantes e situaes desconcertantes , o criador e roteirista Matthew Weiner dividiu os catorze episdios em dois blocos: "O incio", que estreia agora, e "O Final de uma era'', que ser exibido em 2015. 


7#8 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES
3- Divergente. Veronica Roth. ROCCO 
4- A Menina que Roubava Livros. Markus Zusak. INTRNSECA 
5- Convergente. Veronica Roth. ROCCO 
6- O Teorema Katherine. John Green INTRNSECA 
7- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
8- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
9- Fim. Fernanda Torres. COMPANHIA DAS LETRAS
10- Will & Will. John Green e David Levithan. GALERA

NO FICO
1- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Locato. BEST SELLER
2- Assassinato de Reputaes. Romeu Tuma Jr. TOPBOOKS 
3- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
4- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO 
5- O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO 
6- A Estrela que Nunca Vai Se Apagar. Esther Earl. INTRNSECA
7- Da Minha Terra  Terra. Sebastio Salgado. PARALELA 
8- 12 Anos de Escravido. Solomon Northup. VRIAS EDITORAS 
9- O Tempo  um Rio que Corre. Lya Luft. RECORD
10- Um Sorriso ou Dois. Frederico Elboni. SARAIVA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- Foco. Daniel Goleman. OBJETIVA
3- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
4- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. BENVIR
5- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
6- O Que Falta para Voc Ser Feliz? . Dominique Magalhoes. GENTE
7- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 
8- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA 
9- O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
10- A Magia. Rhonda Byrne. SEXTANTE 


7#9 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VOU ATUAR
     Quando o amigo doleiro Alberto Youssef desabafou, exasperado e splice, "T no limite. Preciso captar", segundo dilogos registrados pela Polcia Federal e revelados pela ltima VEJA, o deputado Andr Vargas respondeu, resoluto: "Vou atuar". Andr Vargas, do PT do Paran, at a semana passada vice-presidente da Cmara dos Deputados, j se celebrizara pelo gesto de levantar o brao, como provocao ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, sentado a seu lado. Ao gesto agora acrescentava uma divisa, na forma de uma sentena to curta quanto prenhe de pesporrncia (bela palavra; o colunista agradece ao deputado a oportunidade de us-la): "Vou atuar". 
     Andr Vargas  exemplo acabado da mutao gentica do espcime chamado "petista". Ele nasceu em Assa, perto de Londrina, no Paran, um ms antes do golpe de 1964. Tem 50 anos, portanto, e entrou no PT aos 26, em 1990. Gloriosos tempos esses. O PT era a estrela que apontava para uma sociedade mais justa e costumes renovados na poltica brasileira. Quando se tornou poderoso, o PT passou a qualificar de "udenistas" os adversrios que o atacam com a arma da moral e dos bons  costumes. Naquele tempo a UDN ressurreta era o PT. Seu empenho foi decisivo para a derrubada do presidente Collor, em 1992. Nada mais atraente para um jovem idealista do que um partido como esse. (Suponhamos que Andr Vargas tenha sido um idealista;  o que de melhor podemos fazer por ele.) Sua ascenso foi rpida. Em 1991, j era membro do diretrio municipal de Londrina. Em 1997, deixou-o para instalar-se em Braslia, como chefe de gabinete do deputado Nedson Micheleti. 
     Quando se d a mutao de um jovem idealista para um "Vou atuar"? Os fenmenos da evoluo so infelizmente infensos a respostas com o grau desejvel de preciso. No caso, Braslia talvez tenha contado. Com certeza poder e dinheiro contam. Em 1998, Vargas trabalhou na campanha dos candidatos Paulo Bernardo, do PT, a deputado federal, e Antnio Carlos Belinati, do PSB, a estadual. Era uma estranha dobradinha. O parceiro de Paulo Bernardo, o atual ministro das Comunicaes, era filho de Antnio Belinati, trs vezes prefeito de Londrina, o qual em tantas se meteu que teve o mandato cassado, em 2000, e chegou a ser preso. Na campanha envolveu-se o agora famoso Youssef, e foi nessa ocasio, segundo o jornal O Globo, que Vargas o conheceu. A campanha resultou em escndalo; para alimentar a do filho, segundo investigaes, papai Belinati desviou dinheiro da prefeitura. 
     O dinheiro comeava a passar por perto do nosso suposto jovem idealista. No por acaso, era uma poca em que o PT comeava a acumular poder. Em 2000 ganhou a prefeitura de So Paulo, com Marta Suplicy, e a de Londrina, com Nedson Micheleti, o deputado do qual Vargas fora chefe de gabinete. No ABC paulista, o mais antigo feudo petista, Celso Daniel foi eleito pela terceira vez. O caldo de cultura que transforma o idealismo em "Vou atuar" estava formado. Celso Daniel foi morto dois anos depois. Nedson Micheleti, ao fim de dois mandatos de prefeito, seria condenado por improbidade administrativa. Andr Vargas, enquanto isso, empreendia a irresistvel ascenso que o levou de vereador em Londrina a deputado estadual e, em 2006, a federal. Distinguiu-se, nessa qualidade, pelas posies ultrapetistas de defesa dos mensaleiros e do controle da imprensa. Essa era sua face pblica. Nos bastidores, atuava. As entranhas de seu mundo comearam a vir a pblico no fatdico dia em que Youssef lhe forneceu um jatinho para viajar com a famlia para Joo Pessoa. 
     Que quer dizer "vou atuar"? O dilogo em questo sugere que seja em favor de gesto junto ao Ministrio da Sade para a concluso de falcatrua envolvendo um laboratrio de propriedade do doleiro.  razovel supor que essa seja uma de muitas atuaes. E Andr Vargas no est sozinho. O caso Petrobras, como ltimo e culminante de uma srie, revela quantos outros atuam. O espcime petista, tal qual conformado pela mutao sofrida, em simbiose com uma base aliada que no geral nem precisou mudar  j nasceu assim , fez do Estado brasileiro um mar nunca dantes visto de atuaes. Pobre Dilma. Seu governo est bichado. A corrupo generalizou-se a ponto de ser parte sem a qual o sistema no sobrevive. E ainda tem a economia. E ainda tem a incompetncia. Seu governo faliu. 


